A imortalidade decorre da espiritualidade da alma. Vejamos por quê:
1) A natureza mesma da alma humana
A morte é a dissolução do ser vivo. Ora a alma não pode dissolver-se por si, porque não é composta de partes, mas é simples, como todo espírito é simples ou isento de composição. Por isto a alma humana, uma vez criada, subsiste para sempre, mesmo fora do corpo (do qual ela não depende para existir). Só poderia deixar de existir se Deus, que a criou, a quisesse aniquilar; todavia julga-se que Deus não aniquila nenhuma de suas criaturas (embora o possa), pois isto seria uma espécie de contradição; além disto, seria algo injusto, porque tornaria impossível a aplicação das sanções merecidas pelo ser humano nesta vida.
Concluímos, pois, que a alma humana é naturalmente imortal e não deixa de usufruir desta sua prerrogativa, pois Deus não subtrai às criaturas o que lhes outorgou como atributos próprios.
2) O desejo natural
Todo homem deseja existir sem limites de duração. Este desejo se deriva da própria natureza do homem; não depende de alguma forma de cultura. Ora, tal desejo não pode ser frustrado ou vão; se o fosse, a natureza seria contraditória e absurda. Mais: ela suporia o Absurdo na sua origem, pois teria sido feita para a vida, e a vida sem fim, mas não teria a capacidade de usufruir da imortalidade. Por conseguinte, a alma humana há de ser imortal, a fim de poder fluir da plenitude da vida à qual ela naturalmente aspira.
Questiona-se, porém que, se tal argumento é válido para alma, há de ser válido também para o homem todo (composto de corpo e alma), pois o ser humano como tal deseja viver sempre.
Em resposta observemos: o desejo de imortalidade do homem (ou do composto de corpo e alma), embora seja natural, não é senão uma aspiração ineficaz, pois o composto humano tende naturalmente a desgastar-se; os órgãos corpóreos vão-se tornando ineptos para a vida, até estarem totalmente deteriorados. Nesse momento a alma separa-se do corpo. Ao contrário, o desejo de imortalidade da alma humana pode ser eficaz, pois a alma, não sendo composta, não se dissolve.
Sabemos, porém, pela fé, que o Senhor Deus quis conceber ao homem a ressurreição física, atendendo assim ao desejo natural de imortalidade do composto humano.
3) A sanção da justiça
Todos nós aspiramos ardentemente a justiça. Contudo a justiça na vida presente é precária. Freqüentemente as pessoas retas são prejudicadas por praticarem o bem, ao passo que os iníquos são materialmente beneficiados pela perversão.
Ora, se a alma humana não fosse apta a sobreviver após a existência presente a fim de receber a sanção de seus atos, a justiça ficaria definitivamente prejudicada no caso de muitos homens. A história da humanidade terminaria com o triunfo (ao menos parcial) da injustiça e da desordem sobre a justiça e o bem. Ora, tais conseqüências suporiam um mundo absurdo e, na origem deste mundo, um princípio de contradição, conseqüências estas que não condizem com a ordem e a harmonia que se verificam em geral no universo. Daí é possível afirmar que a alma humana é por si imortal e, por conseguinte, apta a receber na vida póstuma a justa sanção, que muitas vezes na vida presente lhe é negada.
O que acaba de ser dito pode ser ilustrado pela verificação de certos fenômenos ocorrentes na natureza, que parecem excluir a frustração e o absurdo. Com efeito, se tenho olhos, é porque existe a luz, para o qual o olho é feito; se tenho ouvidos, é porque existem sons e melodias; se tenho pulmões, existe o ar que lhe corresponde; se tenho fome e sede, existem os alimentos de que preciso; se a agulha magnética se agita dentro da bússola, existe um pólo Norte (invisível sim, mas muito real) que o atrai. Analogamente se verifico em mim a sede espontânea e natural de certos valores ou mesmo do Infinito, posso estar certo de que tais valores e o Bem Infinito existem no Além, em correspondência a tais aspirações.
Assim se confirma a tese de que a alma humana é por si mesma imortal.
Fonte: meus estudos em Iniciação Teológica na Escola Mater Ecclesiae